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FORMAÇÃO

Quaresma, a esperança do deserto. Para compreender o que celebramos na quarems.

Crescem nas asperezas do caminho
Pequenas flores brancas de esperança:
Não podem os espinhos afogá-las
Pois foi o Amor quem as chamou à Vida

(De um hino da liturgia das horas)

Quando pensamos no tempo da Quaresma, a primeira associação que fazemos é sempre a da «preparação para a Páscoa»: somos transportados para a imagem do longo trajecto que se nos apresenta como um deserto, longo e quente, árido e sem água, a caminho de Jerusalém; os nossos afectos ressaltam para imagens de penitências e jejuns – muitas vezes incompreendidos – ou para abstinências e renúncias.
De um modo geral, o termo quaresma parece remeter-nos, quase imediatamente, a sacrifícios e actividades custosas. Tudo isto, de facto, tem que ver com a quaresma, mas não a define, pelo menos não por si só. Ao longo destas linhas, procurarei aju-
dar a redescobrir um sentido mais profundo deste tempo litúrgico, um dos tempos centrais que a Igreja nos propõe no ano litúrgico.

Recordar as origens

A quaresma nasce por causa da Páscoa; ou melhor, em ordem a ela, como acontece com todo resto do ano litúrgico e como deveria ser com toda a nossa vida. Na Páscoa dá-se o mistério central da nossa existência. É ali que tudo acontece, que tudo se
joga, que tudo se define. Porque o mistério da paixão, da morte e da ressurreição de Jesus, que é nosso Senhor, é o centro e a razão da nossa existência, que nos define e nos alarga o horizonte e, por isso, não nos poderia deixar indiferentes, nem sequer sossegados ou inalterados: é do mistério da Páscoa que nascemos , porque é da Cruz e do Sepulcro vazios que nasce a Igreja. A quaresma, de facto, constitui hoje um dos quatro tempos fortes do nosso calendário, conjuntamente com a Páscoa, que lhe sucede, o advento e o natal. São os tempos fortes porque centrais no ano, todos derivados da celebração da Páscoa, como já referi.

Os primeiros cristãos compreenderam imediatamente a centralidade da Páscoa, e de uma maneira muito concreta. Na hora de escolher o dia de culto, os primeiros cristãos vão optar não pelo shabat (da tradição judaica), mas pelo «primeiro dia da semana»: o dia em que recordavam os acontecimentos da ressurreição de Jesus. Desta feita, cada domingo é dia de celebrar a páscoa do Senhor. Contudo, a pouco e pouco foram sublinhando a memória anual desse acontecimento central e, desenvolvendo celebrações e gestos próprios.

Nos primeiros séculos da Igreja, a celebração da Páscoa era já antecedida por alguns dias de jejum. Tudo parece apontar que esta preparação tivesse que ver com os catecúmenos, com os que viriam a ser baptizados na vigília pascal. De facto, este tornar-se-á um traço caracterizador do tempo quaresmal, muitas vezes esquecido. A
Páscoa significa o nosso renascimento: é a porta de entrada para uma vida e comunidade novas, pela qual entram os que querem ser de Cristo, os que desejam ser baptizados. É por esse motivo que a Vigília Pascal está recheada de símbolos baptismais: trata-se da celebração da passagem da noite para a luz da vida nova em Cristo.

Por isto, durante os primeiros séculos do cristianismo foram-se desenvolvendo “programas de catecumenado”, isto é, de preparação para o baptismo, que passava também por uns dias de jejum e penitência, que lhes recordam a fragilidade da humanidade, mas também o lugar de Deus nas suas vidas, como água que nos sacia e pão que nos alimenta. Ainda durante este período, o Domingo que precede o Domingo de Páscoa (hoje denominado Domingo de Ramos) era chamado de «Domingo da Paixão» e na Sexta-feira e Quarta-feira dessa semana não se celebrava a eucaristia, como sinal penitencial. No final século V, este tempo particularmente baptismal coincide também com um tempo de preparação dos penitentes para a reconciliação, em Quinta-feira Santa.

No século VI, toda a semana que precede o primeiro domingo da Quaresma é convertida num tempo de especial preparação. O Domingo com que iniciava esta semana – portanto, uma semana antes da Páscoa – era a Quinquagésima, porque cinquenta dias antes da Páscoa. Entre os séculos VI e VII, constitui-se um prolongamento maior a este tempo com mais dois domingos (a Sexagésima e a Septuagésima). O tempo da septuagésima, composto por estes três domingos, foi abolido aquando da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, passando a quaresma a
iniciar directamente na Quarta-feira de Cinzas.

Compreender os tempos

O início da quaresma é calculado a partir do Domingo de Páscoa, tendo lugar quarenta dias antes (os Domingos, porque sempre celebração da ressurreição do Senhor, não contam). E este número revela-se particularmente importante. Quarenta dias durou o dilúvio, ao qual sobreviveu Noé e sua família (Cf. Gen 7, 12); quarenta dias e quarenta noites passou Moisés no monte Sinai (Cf. Ex 34, 28); quarenta dias esteve Jesus no deserto, onde jejuou e rezou e quarenta dias esteve Ele
com os discípulos, entre a ressurreição e a ascensão. É um número importante, que habitualmente se refere ao tempo de preparação e de exigência, de penitência, que antecede algo novo: de Noé, a primeira aliança e a nova criação; de Moisés a libertação do Povo; de Jesus o início da sua vida pública e a sua ascensão, e posterior envio do Espírito Santo no dia de Pentecostes.

Hoje, após a reforma, são-nos propostos três ciclos de leituras, durante a quaresma. Comuns aos três ciclos são os episódios da tentação de Jesus e da sua Transfiguração. O ciclo A, tem um tom particularmente baptismal; o ciclo B, tem um sabor essencialmente cristocêntrico; e, o ciclo C apresenta um caminho focado nos temas penitenciais.

Ver mais fundo

Para nós, hoje, o tempo da Quaresma apresenta-se como um período favorável no qual olhamos para a nossa fragilidade e reconhecemos a nossa necessidade de Deus. Como o povo hebreu, atravessamos este longo caminho, com características desérticas, porque experimentamos o silêncio, a nossa sede de Deus, a nossa finitude. Mas isso não significa que seja um tempo de desespero, pelo contrário: ele revela-se um tempo de esperança e de fidelidade, à medida que recordamos a presença e acção de Deus que, como Pastor seguro, caminha à frente do povo, na sua travessia. Este é o tempo do jejum, da penitência e da esmola. Não para nos fazer sofrer, mas para, pedagogicamente, nos libertar, desde já, das pequenas coisas que nos aprisionam e escravizam. O jejum, alimentar ou qualquer outro, educa-nos ao essencial, libertando-nos do supérfluo que, não poucas vezes, ocupa o centro do nosso coração. A penitência, isto é, a abnegação e o agir contra os apetites, educa também a nossa vontade. A esmola recorda-nos que o que temos é um dom que recebemos de graça e que, como tal, não sendo nosso, é para dar e partilhar, particularmente com quem mais precisa. Três exercícios espirituais que nos são propostos neste tempo para que, cada vez mais libertos e disponíveis, possamos acolher a luz e a alegria que brotam do sepulcro vazio.

Assim, o tempo da Quaresma revela-se um tempo de esperança. Não ao jeito do advento, mas da memória da fidelidade de Deus, do Seu amor e misericórdia por cada um de nós e, enfim, do Seu projecto e desejo de encontro connosco. O Pai misericordioso que observava, cada dia, o horizonte, esperando o regresso do Filho que partira, é o mesmo que aguarda expectante, a cada momento, os filhos, errantes ou peregrinos, que vagueiam pelos desertos da vida.

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